dois perdidos numa noite suja

quarta-feira, dezembro 28, 2005

O estilo Piquet



Hockenheim, 8 de agosto de 1982. Na luta pelo bicampeonato com a Brabham, Nelson Piquet larga em quarto, assume a ponta do GP da Alemanha e abre 25 segundos sobre a Ferrari de Patrick Tambay. Na 19ª volta, o impensável: o retardatário Eliseo Salazar, que se arrastava com uma lenta ATS, força a freada na chicane e tira o brasileiro da corrida. Enloquecido, Piquet parte para cima do chileno e o ataca com empurrões e pontapés transmitidos ao vivo para todo o mundo.

Hungaroring, 10 de agosto de 1986. Ayrton Senna larga na pole com a Lotus, é ultrapassado pela Williams de Piquet e retoma a ponta nos boxes. Piquet passa a persegui-lo pelo traçado lento, que só permite ultrapassagens no fim da reta. Na 54ª volta, Senna espreme o rival contra o muro dos boxes, retarda a freada e é ultrapassado, mas mantém a preferência na curva e recupera a posição. Os pilotos permanecem colados nas duas voltas seguintes, até que Piquet força a passagem por fora, freia além do limite e ultrapassa a Lotus de lado, com os pneus travados. Liderança garantida, ergue o dedo médio para o compatriota.

As cenas resumem o estilo de um piloto veloz e irreverente que, apesar do tricampeonato na Fórmula 1 (1981-83-87), dividiu os fãs brasileiros de velocidade.

Piquet x Senna: "Ele não gosta de mulher"

Em março de 88, depois do terceiro título, Piquet amargava uma temporada de quebras e derrotas na Lotus. Senna, que começava a vencer na McLaren, aproveitou a moblilização do GP do Brasil, em Jacarepaguá, para provocá-lo: "Já que ninguém gosta muito dele, o único jeito era eu sumir para que ele pudesse aparecer um pouco". Irritado, Piquet chamou um repórter ao box da equipe e disparou a frase que perseguiria o rival até a morte: "Ele não gosta de mulher".

Quase doze anos depois do acidente fatal de Ayrton, em maio de 94, a rivalidade ainda gera discussão no meio automobilístico e na internet. A comunidade "Piquet foi melhor do que Senna" reúne mais de 2 mil piquetistas no orkut. Para eles, os fãs de Ayrton são "viúvas" e se recusam a aceitar que ele usou a imagem de bom moço para conquistar a simpatia da imprensa. Os sennistas contra-atacam na comunidade "Eu odeio Nelson Piquet", com quase 400 integrantes. Lá, o adjetivo mais simpático sobre o tricampeão é invejoso.

Comparações à parte, a ascensão de Senna veio junto ao declínio de Piquet. Ayrton venceu o primeiro campeonato em 88, um ano depois de o bad boy conquistar o último título. No entanto, foi com Nigel Mansell, companheiro na Williams entre 86 e 87, que Piquet travou o duelo mais acirrado da carreira.

Piquet x Mansell: "Ele gosta de mulher feia"

O brasileiro teve que manobrar nos bastidores e apelar à guerra de nervos para indispor o rival com parte da equipe inglesa. Piquet fez de tudo para irritar Mansell. "Temos duas diferenças. A primeira é que eu venci dois campeonatos e ele perdeu dois. A segunda é que eu gosto de mulher bonita e ele gosta de mulher feia", provocou, em 87. Na véspera do GP do México do mesmo ano, quando o inglês reclamava de desinteria, escondeu o papel higiênico do box.

A língua afiada divertia os fãs, mas fechava portas ao piloto. Em 88, Piquet descartou uma transferência para a escuderia italiana ao debochar do comendador Enzo Ferrari ("O velho está totalmente gagá"). Na mira do brasileiro, que se notabilizou por usar conhecimentos de mecânica para explorar brechas no regulamento, estiveram outros cartolas como Bernie Ecclestone, chefe na Brabham, e Jean-Marie Ballestre, ex-presidente da FIA.

Piquet aprendeu os segredos na oficina em que trabalhava na adolescência, quando corria de kart escondido dos pais e esperava o fim de semana para surrupiar carros em conserto e competir pelo Brasil. Em 1974, trabalhou de graça nos boxes da Brabham num GP extra em Brasília. "Você não serve nem para limpar um capacete", reclamou o argentino Carlos Reutemann. O troco veio sete anos depois, quando Piquet conquistou o primeiro título na F1 um ponto à frente do argentino: "Eu não sirvo para limpar o teu capacete, mas talvez você possa limpar o meu, que é de campeão do mundo".

Original no palmalouca.com

O homem do sapato branco



A notícia mais importante do dia não está nos jornais de hoje. Morreu Jacintho Figueira Jr, o homem do sapato branco. Abaixo, trecho de matéria de Rodrigo Cardoso publicada em 2001 na Istoé Gente. O avô do Ratinho amargava as seqüelas de um derrame: “O pior é que não posso tomar Viagra, porque operei o coração também”.

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Jacintho começou na vida cantando country. Após estrelar os programas Câmera Indiscreta e Um Fato em Foco, lançou na Globo aquele que o consagraria de vez: O Homem do Sapato Branco. “Eu inventei a palavra mundo-cão”, gaba-se. “O Ratinho faz exatamente o que eu fazia.” Em dois anos, Jacintho brilhou com seu Sapato Branco – nome inspirado pelas citações “dos sapatos brancos dos homens” nos livros de Friedrich Nietszche. Ele levou ao ar o primeiro transplante de córnea do País, abriu fogo contra os bicheiros e o Esquadrão da Morte.

Daí para a carreira política foi um pulo – e para o calvário, outro. “Foi a pior coisa que fiz na vida”, diz. “De mil amigos sobraram oito.” No final dos anos 60, Jacintho foi eleito deputado estadual pelo então MDB. O político recebia uma média de 150 pessoas por dia em seu gabinete. Passavam horas, dias, para conseguir cadeira de rodas, geladeira e brinquedos.

E transformavam os corredores da Assembléia Legislativa num acampamento. Dormiam, se alimentavam e até urinavam ali mesmo. Isso deixou o presidente da casa revoltado. Chamado para uma conversa, Jacintho disse: “Isso aqui não é casa do povo? Então, se querem mijar, deixem eles!”.

domingo, dezembro 18, 2005

Minha gente de Quebrangulo!

Marcelo Carnaval - 1990


Hoje sobrou tempo para navegar pelos links de jornais do Nordeste. Vejam o que informou nesta terça a Gazeta de Alagoas, das Organizações Arnon de Mello:


Quebrangulo homenageia Fernando Collor

O ex-presidente Collor discursa agradecendo as homenagens da Câmara de Quebrangulo

Quebrangulo - O ex-presidente Fernando Collor de Mello foi homenageado, na manhã do sábado passado, com o título de Cidadão Honorário do município de Quebrangulo, a 160km de Maceió. Além dele, foram homenageados o vice-presidente do Instituto Arnon de Mello, Carlos Mendonça, e o presidente do PRTB, advogado Eraldo Firmino. Diversas autoridades estiveram na Câmara, que ficou lotada. Entre os presentes estava o promotor de Justiça de Capela, Edelzito Andrade. A população da cidade acompanhou as homenagens.

Collor compareceu ao evento ao lado de sua esposa, a arquiteta Caroline Medeiros, e do filho Fernando James Collor de Mello, vereador pelo municípío de Rio Largo. O título foi proposto pelo vereador Elias Felino Tenório Cavalcante (PSDB), pelos relevantes serviços prestados ao País, durante sua passagem pela Presidência da República.

(...) O presidente do PRTB, Eraldo Firmino, enfatizou que diante da administração do PT, “o País deve desculpas ao ex-presidente Collor”. Ele não escondeu o desejo de ver o ex-presidente de volta à cena política. “Ao ver o Brasil vermelho de hoje, o País sente falta do verde e amarelo”, disse.

Em seu discurso, Fernando Collor voltou a dizer que não pretende disputar nenhum cargo na eleição de 2006. Não dirigiu críticas diretas à gestão do presidente Lula. Ao invés disso, convocou os eleitores a valorizarem o voto e a refazerem suas esperanças. “O voto é um exercício de cidadania. É preciso diferenciar quem quer fazer o bem dos que querem se locupletar. Continuo tendo fé em Alagoas e em nosso País”, afirmou Collor.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Mantra da semana



eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui eu só trabalho aqui

terça-feira, dezembro 13, 2005

Ela só quer, só pensa em faturar



Os Stones vêm aí. Dessa vez, nada impedirá bravomike, homo neokopakabanensis, de assistir à performance dos velhinhos comandados pelo tio Mick.

Depois do nariz-de-cera, o lide: arrumaram uma escola de samba pra tocar Satisfaction pros gringos.

Adivinhem quem está por trás da originalíssima idéia.

Uma dica: modelo e atriz.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Vocação do poder

Paulo Batelli


Neguinho, vai bolar

CartaCapital 340 - 04/05/2005

A sexta-feira de MC Geléia, rapper e ativista político do subúrbio carioca de Anchieta, começou com um impasse. Às 10h de um dos dias mais quentes do ano, a diretora da Escola Municipal Lúcio de Mendonça, onde ele falaria com crianças da 4ª série, cismou em barrar sua entrada com o repórter.

— Ele é representante da mídia — acusava, insensível aos apelos pela liberdade de imprensa. — São ordens da secretaria, posso ser exonerada.

Dez minutos depois, repórter de fora, Geléia conseguiu atravessar o portão de ferro para conversar com os estudantes. O tema era o documentário Vocação do Poder, do qual ele participa com outros cincocandidatos de primeira viagem à Câmara Municipal, mas o papo acabou se transformando num baile funk a capela. Quando soou o sinal das 11h45, os professores já tinham desistido de prender seus alunos nas salas vizinhas, e mais de cem crianças entoavam o refrão de Qual é a Boa, primeiro sucesso do astro local:

— Neguinhooooooooooo, vai bolaaaaar!

Antes do funk, Geléia era Alexsandro Vieira Martins e ganhava um salário mínimo como office-boy numa confecção. Em outubro passado, tentou a vaga na chamada Gaiola de Ouro pelo PV. Passaria despercebido, não fossem as câmeras de Eduardo Escorel e José Joffily. O rapper suburbano teve apenas 2.218 votos, o pior resultado entre os personagens do filme, que oferece um resumo do baixo clero carioca: a pastora evangélica, o clientelista convicto, o herdeiro político, o executivo bem-nascido, o intelectual de esquerda. Além do porte físico (1,97m e 108 kg) e das roupas extravagantes, o rapper atraiu os cineastas com um discurso que mescla dose industrial de gírias atraços de crítica social.

— Vou te dar um papo: quem é mais bandido, Beira-Mar ou Sergio Naya? — provoca, antes de marcar a segunda opção. — O Naya estudou antes deroubar e matar um monte de gente, tá ligado?

A falta de recursos para a campanha é a justificativa para o mau desempenho nas urnas. Não se faz política "sem grana e sem padrinho", argumenta o rapper, que improvisou para se comunicar com o eleitorado:

— Consegui um carro velho com alto-falantes, tive apoio de equipes de funk e corri de porta em porta em busca de votos. Como não podia encomendar santinhos, escrevia meu número em cadernos dos amigos — conta, reproduzindo a operação com o bloco e a bic do interlocutor.

O comportamento "histriônico", como define Joffily, já rendeu um bom susto a Priscila Nunes, de 17 anos, que trabalha como balconista na papelaria da mãe. Durante a campanha, o rapper aproveitou sua distração para anunciar um falso assalto. Antes de a menina reconhecer sua voz, ele caiu na gargalhada.

— Por causa dessas coisas, todo mundo levou a candidatura dele na brincadeira, sem saber se era pra votar mesmo — conta Priscila, que ainda não tirou título de eleitor e, se pudesse, não iria às urnas em 2006.

Sua mãe, Selma, só não votou em Geléia porque tem domicílio eleitoralem Nilópolis, município da Baixada Fluminense vizinho a Anchieta.

— A gente precisa dar uma chance às pessoas que vêm de baixo — justifica.

O estilo que pode ter tirado votos fez de Geléia a estrela da première de Vocação do Poder, que reuniu boa parte da elite cinematográfica carioca no CCBB para a abertura do festival É Tudo Verdade. Quase todas as cenas do rapper — inclusive um desabafo no palanque contra a indiferença da Zona Sul com os favelados — foram interrompidas por aplausos. Quando as luzes se acenderam, Geléia estava cercado de novos fãs.

— Não sei se fui o centro das atenções pelo discurso ou se fiz o papelde bobo da corte — reconhece.

Depois da aventura eleitoral, ele voltou à rotina em Anchieta, onde os moto-táxis avançam sobre praças para cortar caminho e as mulheres usam o guarda-chuva para se protegerem do sol enquanto levam os filhos à escola. É um típico bairro-dormitório, que fica vazio durante o horário de trabalho e batiza a oitava estação do trem de Japeri, a 40minutos da Central do Brasil.

Quando precisa ir ao centro, Geléia divide espaço com vendedores de bala, bananada, amendoim e utensílios domésticos de até R$ 1. Do lado de fora, na pintura de alguns vagões,uma corretora promete o dinheiro que faltou na campanha, "fácil" e "sem comprovação de renda".

Além da pobreza, Anchieta sofre com a violência e a opressão do tráfico. No documentário, o próprio rapper pede à equipe para cancelar as gravações num dia em a morte de um morador provocou tiroteio entre traficantes e a polícia: "Teve troca-troca. O bagulho aí é doidão", avisa.

O bairro que esnobou a vocação política de Geléia continua generoso com o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB), presidente da Assembléia Legislativa e aliado da governadora Rosinha Matheus. Picciani se mudou para o Condomínio das Mansões, na Barra da Tijuca, mas continua influente na região. Na eleição do ano passado, seu afilhado local, Professor Uoston (PMDB), perdeu a cadeira por pouco. Patrocinador de um centro social que prospera com a ausência de hospitais e postos de saúde no bairro, ele teve 18 mil votos — nove vezes mais do que Geléia. Alguns de seus cartazes de campanha ainda resistem, amarelados, em prédios vizinhos à linha do trem.

MC Geléia reclama da concorrência desleal e da falta de compreensãocom algumas de suas bandeiras, como o apoio a ex-presidiários ("como querem diminuir a criminalidade sem arrumar emprego para eles?"). O rapper se julga vítima de preconceito dos eleitores:

— As pessoas acham que político tem que ser rico, intelectual. Não votaram no Geléia, que era igual a elas.

Joffily admite a hipótese ("talvez preferissem um engravatado mesmo"), mas prefere enfocar a decadência do sistema representativo. De acordo com ele, apenas uma em cada 10 pessoas entrevistadas para o filme lembrava o voto de quatro anos atrás.

— A escolha do vereador é vista como secundária. O programa eleitoral é patético, a imprensa não dá bola nenhuma. É como se a eleição não ocorresse – critica.

Apesar da desilusão com as urnas, Geléia pretende insistir na carreira política. Enquanto espera a próxima chance, aposta no projeto da ONG Cidadão Funkeiro, com colegas como MC Samuca, Duda do Borel, Sabrina da Providência e Sapão do Complexo (do Alemão). O aliado mais conhecido é Mr. Catra, que criou polêmica com seus raps "proibidões", acusados de apologia ao crime e ao uso de armas. Em defesa do amigo,Geléia cita o bordão de Som de Preto, da dupla Almickar e Chocolate: "É som de preto, de favelado/ mas quando toca, ninguém fica parado".

— A sociedade é hipócrita. Dizem que o funk está do lado do tráfico,mas na verdade querem calar a voz da favela.

"Lutar contra a desunião dos rappers" é o objetivo principal, mas ele também espera usar a ONG para atender jovens das comunidades pobres do Rio. O plano: revelar novos talentos para o funk, incentivar o estudoe ajudar na prevenção contra doenças sexualmente transmissíveis. Para cumprir as promessas, Geléia sonha com o apoio do ministro da Cultura, Gilberto Gil.

— Ele também é músico. Quero uma oportunidade para apresentar meus projetos.

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Viva sexta-feira



(post em homenagem ao filósofo golfdeltaalpha)

- Pô, você tem a voz estranha, hein?
- Hein, meu filho?
- Cê tem a voz estranha... você é meio viado?
- Viado é tua mãe, seu, seu merda. Que que há?
- Tá com a voz fina aí, porra. Vai, fala direito, porra!
- Eu tô falando... você... isso é maneira de você falar, você é empregado da Telerj, é?
- Sou, claro.
- Mas não parece, tô te reclamando dum telefone, você...
- Fala grosso, porra! Caralho.
- Mas que filho da puta, ó, olha aí, veja você.
- Tu é viado, hein? Pô, tô aqui na porra...
- Chama o chefe aí!
- Tô na Telerj, trabalhando, cê vem falar com voz fina, porra?
- (Gritando.) Quem tem voz fina é tua mãe, seu filho da puta!
- Quer falar com o chefe, é?
- Cê vem aqui que eu vou te arrebentar a cara, seu sacana!